E foi assim, quando eu já nem
mais queria, ele apareceu. Tirou meu chão, fez o meu céu, me roubou. Pegou
aquilo que eu guardava ali, escondidinho, pra ninguém mais ver, nem tocar, nem
querer. De repente eu voltei a ter dias, noites, madrugadas. Sem que eu
percebesse, me tomou por inteira, e verdadeira. Tentei de todos os jeitos,
formas, meios, possíveis e imagináveis, não queria, eu fugia, mas no fim,
sempre voltava. Não sei dizer o que veio primeiro, se foram os olhos, as mãos,
a barba, a boca, os braços, só sei que veio. E eu? Fiquei, e nunca mais quis ir
embora. Gostei. Então eu me dei conta, era ele, sempre foi. Aquele, que roubou
de mim o que estava guardado, e na verdade, deu corda pra voltar a bater,
rápido e devagar, tudo ao mesmo tempo. E nesse embalo eu me refiz, renasci, vi
o sol, só pra dizer que mesmo se houver escuridão, ainda vou vê-lo à luz da
lua.